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quinta-feira, 23 de julho de 2009

A Linha do Tua - Verão


Uma "viagem" na Linha do Tua de Foz-Tua a Mirandela.

Deputado socialista diz no Parlamento que a linha do Tua não tem interesse turístico


A linha do Tua não tem interesse turístico. A opinião foi defendida pelo deputado socialista Luís Vaz, eleito pelo círculo de Bragança, ontem à tarde na Assembleia da República.
Durante o debate sobre a petição da Linha do Tua apresentada há um ano pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua e que tinha como propósito defender a linha do Tua da construção de uma barragem, o deputado afirmou que “a linha férrea deixou de ser útil para as pessoas que ali vivem e trabalham, que optaram pelo transporte rodoviário”.
Luís Vaz salientou que a ferrovia poderia ter potencial turístico, mas não diz que “não conhece um único operador turístico que se tenha interessado pela sua exploração”.
Quem não gostou de ouvir estas palavras foi a deputada do Bloco de Esquerda, Helena Pinto. “Apetece-me dizer que fiquei quase sem palavras depois de ouvir tudo o que o deputado socialista disse. Só faltou concluir com viva a barragem, viva a EDP”, ironizou.
E José Silvano diz que Luís Vaz tem inveja de Mirandela. É desta forma que o presidente da câmara de Mirandela reage às declarações do deputado socialista, eleito por Bragança, proferidas, ontem, na Assembleia da República.
O também presidente da administração da Metro de Mirandela ficou surpreendido com esta posição de Luís Vaz. José Silvano considera que “só fala de Mirandela para cima e que não conhece o Vale do Tua”. Acrescenta que Luíz Vaz vestiu a pele de “deputado por Macedo de Cavaleiros” e que “como não passa lá a linha tem inveja que ela termine em Mirandela”.
José Silvano desmente também que não haja três operadores interessados em explorar a linha do Tua. "Basta consultar o estudo que as Câmaras fizeram para constatar que há empresas interessadas".
A petição sobre a linha do Tua vai ser votada esta sexta-feira.
Eduardo Pinto/RA

Nota: É caso para dizer: Se assim fala quem devia defender a região, o que esperar dos engravatados de Lisboa?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Frechas, da Linha do TUA

Na minha última passagem por Frechas, à descoberta dos encantos da Linha do Tua, levei comigo uma pequena máquina fotográfica que grava vídeo. Juntei alguns com as fotografias que tirei e fiz este pequeno vídeo. É a visão de Frechas a partir da Linha do Tua. As imagens foram captadas desde as Latadas até próximo do Cachão, mostrando a Linha, o rio, a estação o Túnel de Frechas, a Ponte da Carvalha, etc.
É um pouco do ambiente e da paisagem no mês de Março.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Linha do Tua no Outono


Uma "viagem" na Linha do Tua no Outono. Fotografias tiradas durante os meses de Setembro, Outubro e Novembro de 2008, entre Codeçais e Mirandela.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Acidente na Linha do Tua

Ocorreu, perto das 11 horas de hoje, um acidente na Linha do Tua, entre os apeadeiros da Brunheda e do Tralhão.

Mais informação no Blogue - A Linha é Tua - (http://alinhaetua.blogspot.com/)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cachão - Mirandela (II)

No dia 29 de Julho voltei à Linha do Tua. O objectivo era completar a segunda volta à linha, desta vez em pleno Verão, para poder comparar com aquela que tinha feito na Primavera.
Cheguei ao Cachão, pouco depois das 10 horas. Desta vez não dependia da passagem da automotora. Andava uma pessoa a arrancar algumas ervas nos passeios da estação e, numa curta conversa, fiquei a saber que o troço entre Frechas e Mirandela se encontrava em obras de melhoramento. A Linha do Tua estava toda assente em terra, mas, a situação foi sendo melhorada ao longo dos últimos tempos. Já tinha reparado que o troço mais envelhecido, era entre Frechas e Mirandela, exactamente aquele que se encontra agora em obras.
Esta informação aguçou a minha curiosidade. Na viagem que aqui fiz a 25 de Abril de 2008, tirei fotografias fantásticas, com as papoilas a invadirem a linha. Dá-me ideia que essas imagens nunca mais se vão repetir.

O quilómetro 42º acompanha a estrada N213. Foi uma zona em que tirei boas fotografias. O aspecto estava completamente diferente. Ladeavam a linha duas faixas de ervas completamente ressequidas, com sementes que se prendiam à roupa, lutando pela sua disseminação. Até o bonito jardim de uma moradia que existe sensivelmente a meio desse quilómetro, estava um pouco mais desleixado do que o habitual. Tinha muitas rosas secas.
Um pouco mais à frente reencontrei um casal de aves de rapina que habita esta zona. Estou em crer que se trata de um casal de milhafres-reais (Milvus milvus). Há outro casal de aves de rapina que nidifica entre a Ribeirinha e o Vilarinho das Azenhas, este deve nidificar aqui. Também, logo a seguir a Latadas, há um troço de rio muito largo, com muita água, onde, penso existir mais um casal residente.
Com o céu sem nuvens, o Faro parecia-me ali perto. Este monte fascina-me! Gosto muito de fotografar a linha com o monte a fazer de fundo. Parece até que estamos numa paisagem do centro ou norte da Europa.

Pouco depois avistei as o Bairro Nossa Senhora de Lurdes, em Frechas. Ao chegar à estação, não pude deixar de reparar nas ruínas em redor. Houve um tempo em que a linha era o principal acesso a estas terras. À volta das estações da linha cresciam comércios, pensões e armazéns, conforme a população que serviam. Por exemplo, o Cachão, era o ponto de entrada para o concelho de Vila Flor. Havia um serviço de autocarro entre Cachão e Vila Flor, mas já antes, esse percurso era feito a cavalo. Com a melhoria das estradas, o comboio foi perdendo importância e as infra-estruturas existentes foram sendo abandonadas. Em Frechas, não era difícil manter as casas de banho da estação operacionais, mas agora estão vandalizadas. Quando retomei a marcha apercebi-me que estava quase na hora de passar a automotora. Já não me dava tempo para chegar ao Túnel, por isso abandonei a linha e decidi esperar por ela à sombra de uns enormes choupos brancos. Passou poucos minutos depois, cheia de passageiros, muitos deles turistas que viajam na Linha do Tua por prazer. Estes são, cada vez mais.
Junto à Ponte da Carvalha, entretive-me a tentar fotografar as borboletas. As flores em volta da linha são poucas, ao contrário das borboletas que abundam, mas são muito ligeiras, voando ao mais pequeno movimento.

Pouco depois atravessei o Túnel de Frechas e a vista alargou-se de novo para o rio. A beleza deste vale está neste namoro constante, entre a linha e o rio que raramente se separam. Seguem o mesmo curso, traçam as mesmas curvas, rasgam as mesmas fragas, enfrentam as mesmas ameaças.
Entrei no troço em obras. Está a ser feita uma grande obra: construção de muros de sustentação, aquedutos de escoamento de águas; colocação de gravilha; substituição das travessas; nova soldadura dos carris. Estes são os melhoramentos que uns olhos não treinados vêem. Na zona em obras, é muito complicado andar pela linha. A gravilha cobre mesmo as travessas. Além de ser doloroso estar sempre a caminhar sobre este tipo de piso, é também perigoso. O facto de o pé não apoiar bem, aumenta o risco de entorses. São necessárias umas boas botas.
A zona das Latadas está completamente diferente. Há pouca água, mas as árvores, exuberantes, continuam a dar bastante beleza ao local.
Pouco antes de chegar à Quinta do Choupim, há uma zona plana, com pastos, que me deu grande gozo fotografar na Primavera. Como seria de esperar, agora estava tudo seco. Estava nessa zona quando passou uma nova automotora em direcção a Mirandela.
Era 1:50 da tarde e tinha quatro quilómetros para percorrer. Consultei os horários. Só tinha transporte de Mirandela para o Cachão às 16:14, por isso não tinha necessidade de me apressar.

Dois quilómetros antes de chegar a estação de Mirandela, encontrei o local onde decorriam as obras de substituição das travessas mais velhas. O trabalho é feito durante a noite, uma vez que é necessário arrancar os carris, por isso, não se via ninguém a trabalhar.
Cheguei junto da Ponte Europa. O ambiente era de festa. Do outro lado do rio via-se e adivinhava-se, grande animação, mas ainda contida, dado o calor da tarde.
Demorei bastante tempo a percorrer o último quilómetro. Parava a cada instante, espreitava o rio através do jardim. Sentei-me na relva, retirei as sapatinhas e a maior parte das sementes que levava presas às meias.
Às três e meia da tarde, atravessei todo o Parque do Império e parte da Ponte Românica para tirar algumas fotografias e comprar água fresca. Neste percurso não tive problemas com a água. As três garrafas pequenas que levei, chegaram-me até Mirandela. Apesar do sol, circulou sempre algum ar fresco e não transpirei muito, talvez também pelo facto da linha se encontrar mais próxima da frescura do rio, coisa que não acontece nos troços do início da linha.

À hora da partida da automotora, já estava na estação. Estava completamente lotada, também não me importei, viajo sempre de pé. Muitas das pessoas eram turistas. Alguns vão de carro até ao Tua, fazem o percurso ascendente, almoçam em Mirandela e voltam ao Tua pela tarde.
Com a aproximação do Verão, as automotoras circulam sempre cheias. A linha tornou-se uma atracção turística, mais pela polémica, do que pela promoção que as autarquias fazem. Antes pelo contrário, algumas autarquias, escondem o Rio e a Linha do Tua, com receio que as suas ideias mercantilistas sejam postas à prova, contrariando a ideia de que a linha não é utilizada.
Regressei ao Cachão na automotora. Completei com este percurso, duas voltas à linha, entre Foz-Tua e Mirandela. Talvez quando chegar o mês de Outubro me anime a percorrê-la de novo, em busca das cores do Outono. Até lá, vou-me deliciando com centenas e centenas de fotografias e as recordações de passeios inesquecíveis.


Mais informação no Blog: A Linha é Tua

segunda-feira, 14 de julho de 2008

De volta à Linha do Tua

No dia 12 de Julho voltei à Linha do Tua. Desta vez o percurso foi o troço de linha no concelho de Vila Flor. Começou, pouco antes da estação de Abreiro e terminou no Cachão, onde também tirei algumas fotografias.

A reportagem de todo o percurso pode ser lida - aqui -

sábado, 12 de julho de 2008

Linha do Tua - Debate Público


Dia 25 de Julho de 2008, no Porto.
Cartaz em formato PDF aqui.
Mais informações no sítio do Movimento Cívico pela Linha do Tua.

(nota: a fotografia do cartaz pode parecer familiar, e é. Foi tirada dia 25 de Abril, entre Frechas e o Cachão)

sábado, 3 de maio de 2008

O Rei ficou a pé e os utentes da CP vão na mala do carro.

Autor: Hugo Guimarães <hugo-guimaraes@mail.telepac.pt>
Data: 26-04-2008

O Rei ficou a pé e os utentes da CP vão na mala do carro.

Este sábado, a propósito das recentes notícias sobre o eventual encerramento da linha do Tua, resolvi, com a minha namorada, passear na mesma.
Em primeiro lugar fiquei chocado, juntamente com outros turistas, quando à chegada da estação do Tua fomos informados de que o troço da linha entre Tua e Abreiro (o mais espantoso do percurso) estava encerrado. No entanto, quando perguntei aos funcionários da CP e da REFER se havia obras na linha, estes comunicaram-me que as obras estavam concluídas e que apenas se aguardavam instruções “superiores” para reabertura desse trajecto.
Para transportar os passageiros, a maior parte turistas que vinham especificamente apreciar o trajecto do caminho de ferro, estavam 2 taxis ao serviço da CP. Obviamente que, num sábado de sol de primavera, os dois táxis não chegavam para todos os passageiros.
De forma a “resolver” o problema, o taxista chamou um outro táxi. Mesmo assim, nem todos os passageiros cabiam nos 3 taxis, um deles prontificou-se a ir na mala do carro e assim se resolveu o problema do transporte dos passageiros. Uma vez que com todas aquelas manobras o tempo se foi esgotando (e a Automotora de ligação estava à espera na estação de Abreiro) o taxista foi “forçado” a acelerar a marcha chegando mesmo a atingir os 90Km/h naquela estrada cheia de curvas e contra curvas. Não critico o taxista que fez todos os possíveis para se assegurar que toda a gente chegava a tempo ao comboio. A questão que faço é: Valerá a pena a CP substituir a alegada insegurança da linha por insegurança rodoviária? Quando ainda por cima as pessoas queriam era ver o percurso do comboio?
Mas, lá chegamos ao comboio sem “azares de percurso”.
Durante a viagem de comboio vi com os meus próprios olhos o estado de má conservação em que se encontra a linha, forçando a automotora a circular a uma velocidade de 35km/h. Velocidade esta que torna o comboio não competitivo (quando na prática tinha todas as condições para o ter).
Chegamos a Mirandela no tempo previsto e aproveitamos o maravilhoso jardim junto ao rio para fazer um piquenique.
Quando voltamos para a estação com vista a tomar o comboio de regresso ao Tua ficamos surpreendidos com a presença de D. Duarte Duque de Bragança naquele lugar. Este encontrava-se com representantes do Movimento Cívico pela Linha do Tua que recolhiam assinaturas para uma petição a favor do não encerramento da linha. Aparentemente era intenção do nosso Rei fazer também o percurso Mirandela-Abreiro, coisa que não se veio a verificar. O mais incrível é que o Rei não pôde fazer este percurso porque a automotora já estava lutada (40 lugares sentados e 30 em pé). E, apesar do esforço do maquinista para receber autorização para acoplar uma outra automotora (existiam 2 disponíveis na estação de Mirandela), esta foi-lhe recusada por alguém superior (da CP ou da REFER).
Em resumo, os turistas que queriam ver a linha tiveram de desistir ou ir de táxi, alguns passageiros tiveram de ir na mala do táxi e o Rei ficou “pendurado” na estação de Mirandela.
Parece-me mesmo que algumas entidades querem arruinar de vez a imagem da linha do Tua para terem menos “entraves” no seu encerramento!!!
Que País em que vivemos… as vezes, e apesar de gostar muito do meu País, tenho vergonha (já que outros não a tem) …

Hugo Guimarães

Na Linha do Tua 4


No dia 1 de Maio tive tempo para mais uma etapa "À Descoberta" da Linha do Tua. O meu plano era fazer o percurso que vai da estação da Brunheda a Foz Tua em duas caminhadas ao longo da linha, mas, com os acontecimentos mais recentes que levaram ao encerramento, precisamente, desse troço da linha, as coisas complicaram-se. Acolhido de um ímpeto daqueles que é difícil controlar, decidi fazer todo o percurso numa só etapa.

Leia toda a história aqui.

Ligação para a 1.ªetapa entre Cachão e Ribeirinha
Ligação para a 2.ªetapa entre a Brunheda e Ribeirinha
Ligação para a 3.ªetapa entre a Cachão e Mirandela
Ligação para a 4.ªetapa entre a Brunheda e Foz-Tua

terça-feira, 29 de abril de 2008

Petição pela Linha do Tua VIVA


Como tenho mostrado pelas fotografias recentes neste Blog, a Linha do Tua é um dos locais mais bonitos de se percorrer no Nordeste Trasmontano. A par disso, é uma importante obra de engenharia feita por aqueles que acreditaram que os que cá viviam, também tinham direitos. Para algumas aldeias ao longo da linha é ainda o meio de transporte mais prático e económico.
Os movimentos a favor da manutenção da linha (contra a barragem), são muitas vezes acusados de nem saberem onde fica o Tua, de serem estrangeiros. Os que vivemos aqui, e que queremos continuar a viver, também somos capazes de imaginar outro tipo de desenvolvimento, sem destruição do nosso património e sem esvaziamento da região de quase tudo o que foi conquistando com muito esforço. Apregoa-se o desenvolvimento à custa da desertificação, do encerramento, da entrega das poucas coisas valiosas que temos aos grandes interesses económicos.
Os próprios autarcas estão "tão convencidos" das vantagens da construção da barragem, que na reunião que tiveram em Carrazeda de Ansiães a meados de Abril, quando pensavam discutir as contrapartidas a pedir, decidiram criar uma comissão para o estudo do desenvolvimento da região, aceitando como possível a manutenção da Linha do Tua como factor de potencial desenvolvimento.
Aconselho a leitura da Petição pela Linha do Tua neste endereço, e a assinarem-na, como forma de empenhamento na defesa de um património que é nosso, mas que queremos deixar às gerações futuras.

Mais informação aqui:
http://www.alinhadotua.com
http://www.linhadotua.net

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Na linha do Tua


Hoje foi o dia de partir "À Descoberta" de mais um troço da Linha do Tua. Dia 25 de Abril, dia da liberdade e não há melhor local para eu me sentir livre do que em contacto com a Natureza, longe do barulho, longe da pressão, longe de tudo o que torna o nosso dia a dia num círculo viciado.
Depois de percorrer, a pé, a 1.ªetapa entre Cachão e Ribeirinha e a 2.ªetapa entre a Brunheda e a Ribeirinha, pretendia continuar em direcção ao Tua, mas o acidente que aconteceu na linha, com a Dresin, no dia 10 de Abril, tem dificultado os meus planos.

A minha ideia inicial, era percorrer, a pé, a parte da linha que tem grandes hipóteses de ser trocada por contrapartidas com a EDP, mas depois pensei: porque não percorrer os 54 quilómetros que vão desde Foz-Tua a Mirandela? Como as automotoras continuam a fazer o percurso Brunheda – Mirandela, mantendo os mesmos horários, planeei a 3.ª etapa, Cachão – Mirandela.

Estudei os horários, o trajecto, consultei mapas e fotografias aéreas na Internet. A caminhada seria do Cachão a Mirandela. Iria de carro até ao Cachão; seguiria pela linha até Mirandela; apanharia a automotora de volta ao Cachão e regressaria a casa. Em termos de horários, já sei que tenho de somar bastantes mais horas do que aquelas que são necessárias para fazer o caminho. O objectivo era tirar fotografias e não fazer o percurso o mais rápido possível.

Às onze horas estava no Cachão. O céu estava limpo e o sol escaldante. Carregava o almoço, bastante água e, claro está, o material fotográfico necessário. A estação do Cachão está muito bem cuidada. Foi pintada recentemente e a área circundante está limpa. Até tem um horário dos comboios colado na porta (que ainda tem vidros!). A poucos metros de distância há alguns armazéns, estes sim destruídos. Um deles tem um bonito gradeamento em ferro, mesmo a pedir algumas fotografias a preto e branco.

Segui viagem, pela linha, mas sempre atento a qualquer possibilidade de descer até ao rio, que tem um grande caudal, fruto das “águas mil” de Abril. Neste percurso entre Cachão e Mirandela, a linha e o rio parecem de costas voltadas, chegam mesmo a separar-se, como acontece em Frechas.

A diferença de cota entre os dois é muitas vezes pequena, o que não permite ver o rio da linha. Ao longo de todo o percurso o rio corre mais manso do que para jusante, sempre ladeado de duas luxuriantes linhas de árvores, uma em cada margem, que dificultam a visão. De onde em onde resistem grandes açudes, acompanhados das ruínas das respectivas azenhas. Mesmo sem se verem, os açudes adivinham-se, pelo barulho que a água faz quando as transpõe.
No espaço em que a linha segue paralelamente à estrada N213 há dois açudes. Recordo-me comer uns peixinhos fritos, há mais de 20 anos atrás, na única casa que há perto do segundo açude! Depois a linha e a estrada separam-se só voltando a juntar-se perto da estação de Frechas.

A vegetação em volta, solicitava mais e mais fotografias. As papoilas vermelhas saltavam da verdura lembrando-me os cravos de Abril. Mais modestas mas não menos bonitas surgiam tufos de outras flores despertando a minha sensibilidade e o meu conhecimento: miosótis (Myosotis arvensis), borragem (Borago officinalis), erva das sete sangrias (Lithospermum diffusum), viperina (Echium tuberculatum), estevas, (Cistus ladaniferus), arçãs (Lavandula stoechas), jacinto das searas (Muscari comosum), roas (Rosa canina), muitas crucíferas e giestas. Quanto mais tempo se perde olhando com calma, mais variedade de vida se descobre.

Levei algumas horas a chegar a Frechas! Exposta ao sol, parecia adormecida no perfume das flores, aquecida pelo sol. Ao passar sobre a Ribeira da Carvalha, apeteceu-me molhar os pés, refrescar a cara, mas ainda havia muito caminho a percorrer. Atravessei o pequeno túnel sob a estrada nacional e preparei-me para admirar o rio. É neste ponto que da linha se avista melhor o rio. Lá ao fundo, onde o rio se esconde no cachão, os cumes do Faro e da Senhora da Assunção parecem vigiar os meus passos. Que felizes que são, tem hipótese de desfrutar desta paisagem dia após dia!

Consultei a minha cábula com os horários. Dali a pouco passou a automotora em direcção a Mirandela, onde chegaria perto das duas da tarde.
Andei mais um pouco e apanhei um valente susto. Numa quinta, muito bonita que existe na encosta apareceu mais de uma dúzia de cães gigantescos. Felizmente só um avançou para a linha. Não se sentindo apoiado, desistiu e eu pude continuar. A partir deste ponto, é onde a linha está em pior estado. As travessas estão velhas, mal apoiadas e a linha está invadida por ervas daninhas. Está assim até Mirandela. Andam algumas máquinas a enterrar ao lado da linha estruturas para fibra óptica. Penso que depois a linha sofrerá uma intervenção, colocando este troço ao nível da que já existe desde o Tua até Frechas.

No apeadeiro Latadas parei. Aproveitei para saborear o “almoço” já muitas vezes desejado, sentado num tufo de erva, à beira-rio.
Recuperado do cansaço, retornei a marcha. De novo a linha se afasta da estrada N213, só voltando a encontrar-se já em Mirandela.

Depois de algumas curvas, a vista alarga-se. Surgem campos povoados de flores espontâneas de todas as cores. Apeteceu-me deixar a linha e explorar o espaço circundante. Estava na Quinta do Choupim.
Pouco depois surgiram campos cultivados de ambos os lados da linha. Hortas, vinhas, olivais, pomares, mas também boas terras onde se plantavam batatas.
As primeiras casas de Mirandela já se viam ao longe. Acelerei o passo. A automotora partiria para o Tua às 16:14 e eu tinha pouco tempo para chegar à estação. Quando cheguei à Ponte do Açude convenci-me que poderia chegar a tempo.

Nos últimos metros há um carreiro que acompanha a linha e um bonito jardim entre o carreiro e o rio. A paisagem é deslumbrante, seria um óptimo lugar para merendar.
Cheguei à estação a dois minutos da automotora partir. Só tive tempo de limpar o suor e beber um pouco de água. Ainda chegou um grupo de 6 pessoas que desistiram da viagem quando souberam que não poderiam fazer o percurso até ao Foz-Tua pela linha.

Tirei o bilhete até Frechas e coloquei-me junto ao maquinista, apreciando a linha e trocando algumas palavras. Soube que seguiriam onze passageiros, de táxi, da Brunheda para o Tua. Também soube que a linha está completamente recuperada, mas ainda não foi ainda dada autorização para retomar a circulação da automotora no percurso completo.
Apeei-me em Frechas com uma intenção: dar um passeio pela beira-rio admirando a bonita praia fluvial.

Da estação segui, imagine-se, para a Rua da Liberdade. Desci a Rua dos Combatentes em direcção ao rio. Alguns caminhos estavam intransitáveis devido ao caudal do rio e tive que saltar algumas paredes para chegar à praia fluvial. Havia bastantes pessoas espalhadas ao longo do rio. Algumas mulheres lavavam roupa, outros descansavam, brincavam ou pescavam. Subi às ruínas da azenha à procura de melhores ângulos mas o brilho do sol reflectido na água ofuscava a câmara.

Segui em direcção a jusante e depois meti por um caminho em direcção à linha. Esperava-me mais um último esforço até chegar ao Cachão. O sol baixo, queimava-me a cara e dava colorações macias nas zonas translúcidas das flores e folhas. Não sei quanto tempo demorei. Cheguei à estação em simultâneo com a automotora que saiu da Mirandela às 18:13.

Percorri à volta de 18 quilómetros, a pé e tirei 814 fotografias. A selecção de meia dúzia para ilustrar esta minha aventura, é uma tarefa difícil. As fotografias ficam guardadas, mas os locais estão lá, cheios de luz e cor, à espera de serem visitados.
Ligação para a 1.ªetapa entre Cachão e Ribeirinha
Ligação para a 2.ªetapa entre a Brunheda e a Ribeirinha

Texto e fotografias de Aníbal Gonçalves

sexta-feira, 14 de março de 2008

Dia Internacional de Acção pelos Rios: este rio é TUA!



Hoje, dia 14 é o Dia Internacional de Acção pelos Rios.
Estão previstas algumas actividades
ao longo do Rio Tua, para assinalar este dia.
Mais informação aqui.

Linha do Tua: Circulação novamente suspensa a partir de domingo


Bragança, 14 Mar (Lusa) - A linha do Tua vai ser encerrada novamente no troço afectado pelo acidente de Fevereiro de 2007, por determinação do Instituto de Mobilidade e Transportes Terrestres (IMTT), disse hoje à Lusa fonte ligada ao processo.

De acordo com a mesma fonte, o instituo fiscalizador ainda não recebeu do LNEC e da REFER a comprovação de que foram executadas as medidas de segurança necessárias à circulação ferroviária.
A linha reabriu, entre a Brunheda e Foz Tua, a 27 de Janeiro, com uma autorização temporária, que determinava que até 15 de Março teriam de ser entregues no IMTT os relatórios das condições de segurança.
Segundo a mesma fonte, essa informação ainda não chegou ao instituto, que notificou as diversas partes de que a partir de 16 de Fevereiro está interdita a exploração comercial da linha naquele troço.
Contactada pela Lusa, a CP informou que vai acatar a decisão da entidade de supervisão e que não depende desta empresa o retomar da circulação ferroviária.
A CP refere que "é afectada como os clientes", um mês e meio depois de a linha ter reaberto em toda a extensão, quase um ano passado do acidente que matou três ferroviários..
A REFER é a empresa responsável pela infra-estrutura e pelas obras já executadas e medidas de segurança a tomar, por indicação do LNEC.

HFI.
Lusa/fim
19:20 | Sexta-feira, 14 de Mar de 2008 in Expresso

Há uma alteração à notícia anterior (4 horas depois! Como as coisas mudam!). A Agência LUSA está a noticiar:

Linha do Tua: Suspensão adiada, REFER E LNEC têm uma semana para criarem condições
Instituto de Mobilidade e Transportes Terrestres dá uma semana à REFER e LNEC para providenciarem condições necessárias de segurança à circulação na linha.
23:20 | Sexta-feira, 14 de Mar de 2008

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Mirandela:Vale do Tua é uma mina inexplorada - ambientalistas


Mirandela, 24 Fev (Lusa) - O rio e a linha ferroviária do Tua são uma "mina" por explorar em Trás-os-Montes, podendo servir de base para o desenvolvimento turístico e económico das populações locais, defendeu hoje João Branco, dirigente da associação ambientalista Quercus.

Cerca de meia centena de pessoas viajaram hoje no metro de Mirandela, que percorre a linha ferroviária do Tua, e concentraram-se na estação de Abreiro, no âmbito da iniciativa "Por Linhas Travessas" que pretende dar a conhecer a paisagem, fauna e flora do vale do Tua.
A iniciativa foi do Núcleo de Estudos do e Protecção do Ambiente (NEPA) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em colaboração com a núcleo de Vila Real da Quercus e da Coordenadora de afectados pelas Grandes Barragens e Transvases (Coagret).
"O rio Tua apresenta um conjunto importante de aspectos no âmbito da fauna, da flora, da geologia, da paisagem, do património arqueológico e da cultura. Este vale, com o rio e a linha-férrea, representam uma mina ainda por explorar", afirmou João Branco.
É que, para o ambientalista, as gargantas apertadas que caracterizam o vale do Tua, "proporcionam paisagens e condições hídricas óptimas para o usufruto da canoagem e disciplinas associadas" e a linha de caminho de ferro, com 120 anos de vida e considerada uma das mais belas da Europa, "serve de forma perfeita a acessibilidade para as actividades de descoberta do vale".
São "muitas" as espécies que habitam neste território, desde a garça real, a águia de bonelli, cegonha negra, o bufo real, ou, em termos de flora, albergando dois habitats prioritários de zimbro e sobreiro, que constam da directiva habitat da União Europeia.
Foram também muitos os turistas, vindos desde Braga, Coimbra, Porto, Vila Real, canoístas de Fafe, estudantes Erasmus da Polónia e até um casal de ingleses que apanhou boleia com o grupo, que viajaram no metro do Tua.
Para a maior parte foi a primeira vez que fez este percurso e por isso as reacções à paisagem foram de "espanto" e de "encanto".
"A paisagem é muito bonita, embora um pouco assustadora nas zonas mais íngremes e escarpadas. Gostei muito de tudo", disse à Lusa, Paula Carvalheiro, que viajou desde o Porto.
Já Rui Silva, que se deslocou desde Coimbra, caracteriza a paisagem do vale como "extraordinária", considerando "inadmissível" que ela seja destruída pela subida das águas da barragem.
Inês Bião estuda na UTAD e trouxe o pai, Inácio, de propósito para conhecer a região e a reacção dos dois foi idêntica: "é uma paisagem magnífica".
Para Leonel Castro, do clube náutico de Fafe, o rio Tua apresenta "excelentes condições para a prática de canoagem, formando grandes ondas e rápidos, sendo ainda navegável praticamente durante todo o ano".
Aos turistas juntaram-se alguns populares das aldeias de Abreiro e Vieiro.
Para Arnaldo Fontes, habitante de Abreiro, a linha não devia encerrar porque "nem todas as pessoas tem carro ou dinheiro para alugar um táxi quando precisam de ir, por exemplo, a Mirandela".
Já Carolino Augusto, do Vieiro, disse ter muita pena de ver fechar a linha onde trabalhou, em reparações, durante muitos anos e que considera ser ainda um importante meio de transporte.
O principal "inimigo" do vale do Tua é, na opinião dos ambientalistas, a barragem prevista para a foz do rio e cujo concurso público para a sua construção abriu este mês.
João Branco referiu os impactes negativos, a nível do ambiente e também da economia local.
"Vinte por cento das vinhas do concelho de Murça, mas as que dão mais e melhores vinhos, vão ficar destruídas afectando o principal sustento de dezenas de famílias", salientou.
Apesar de ainda não se saber a que cota vai ser construída a barragem, João Branco considera que o vale do Tua ficará "irremediavelmente destruído" com esta infra-estrutura, que, na sua opinião, só trará lucros aos "grandes grupos económicos e não às populações locais".
Para além de defender a manutenção da linha do Tua, que actualmente se estende apenas do Tua (Carrazeda de Ansiães) a Mirandela, Pedro Couteiro, dirigente da Coagret, quer ainda que se recupere a ligação a Bragança e se estenda a Puebla de Sanabria, em Espanha.
A futura ligação ferroviária em Alta Velocidade Madrid-Puebla de Sanabria deverá estar concluída em 2012, e, segundo o responsável, tendo em conta que Bragança se encontra a pouco mais de 30 quilómetros de Sanabria, "seria imperativo estudar a conexão entre estes dois pontos, pois esse projecto permitiria oferecer novos horizontes a toda a região de Trás-os-Montes".
"Por Linhas Travessas" é um ciclo de percursos pedestres, ferroviários e fluviais que pretende dar a conhecer a região de Trás-os-Montes e Alto Douro através das linhas de caminho de ferro.
Joaquim Silva, do NEPA, referiu que, nos próximos meses, vão ser organizadas passeios, todos acompanhados por especialistas em fauna, flora e paisagem, nas linhas estreitas do Tâmega, Corgo, estando previsto ainda um regresso ao Tua.
Também para 14 de Março, em que se assinala o Dia Internacional da acção dos danos contra os rios, água e a vida, as três associações ambientalistas estão já a programar um conjunto de iniciativas que decorrerão entre Mirandela e a estação do Tua.

PLI.

Lusa/Fim

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

TUA Muitos idosos e poucos turistas

Vão chegando na alegre algazarra dos adolescentes. E, no entanto, são idosos quase todos, os passageiros que entram na automotora verde acantonada na estação de Mirandela, com destino aprazado para dali a um par de horas e 55 quilómetros, na estação terminal do Tua. Chegarão lá cinco dos 26 viajantes que a máquina carrega... A benevolência extemporânea do clima e o resultado sofrível da selecção nacional de futebol polarizam as conversas por género - mistérios da meteorologia para elas, misérias desportivas para eles. E assim, sem atritos nem atropelos, não tarda que os 24 lugares disponíveis no bólide, uma dúzia alinhada em cada lado, estejam ocupados por autóctones.Forasteiros, apenas quatro dos 24 mil que utilizam a linha por ano, facilmente discerníveis um casal pelo trajo, tão casual que sugere um fato de treino (o dele com Spalding escrito no peito); o outro pelo sotaque, trazido do Funchal nas férias curtas do Carnaval. Soando as 10 horas, a automotora verde, uma das três LRV2000 que a Metro de Mirandela opera - havia outra, mas foi abatida após o acidente de há um ano que vitimou três pessoas -, ronrona os motores na via estreita e parte rumo a uma paisagem única e arrebatadora. E que é já memória...
Uma velha apeia-se com os vagares da idade em Latadas, o primeiro apeadeiro. Ninguém reclama da demora, que a conversa está boa e a paisagem é demasiado urbana para ser interessante. O rio corre do lado direito sem atritos, entre as leiras e a neblina. Após um túnel breve, a grande evasão dá-se em Frechas, onde calha sair Alice Caravelas. A professora liceal, de 30 anos, advoga não só a utilidade da linha - "não tenho carro e é barato (menos 60 cêntimos do que o autocarro para Frechas) -, mas também a vertente lúdica "Já fui algumas vezes até ao Tua e quero repetir na Páscoa, antes que a linha encerre", garante, admitindo que "a barragem talvez supere a receita do turismo", mais pródigo no Verão, embora "no Inverno seja mais atractivo", assinala. "Só que não há muita divulgação", diz. E sai. Leva mais seis passageiros com ela. Após 12 quilómetros e muitas curvas e trepidações, ruminando o verde da paisagem lavrada, a automotora deixa mais seis em Ribeirinha, estação habitada e limiar da civilização. A meia dúzia é contestatária: "No ano passado, fiz 114 viagens. Estou a viver em Mirandela e tenho aqui as fazendas. Se a linha for fechada, tenho de ir e vir de qualquer maneira", protesta Adelino Trigo, de 77 anos. É socorrido, na defesa da linha, por Acácio Amaral, aposentado da GNR aos 54 anos e viajante incansável: "Desde jovem que uso este transporte. A minha mulher vai uma vez por mês a Penafiel e ao Porto e vamos sempre neste", assegura, dando conta dos malefícios de uma barragem: "Prefiro a linha. Primeiro, a riqueza que existe, os melhores terrenos, fica tudo submerso", afiança, interrogando: "O que é que essas pessoas vão fazer depois? Vão viver de quê? Se já assim vão daqui para fora…".
Dali para fora está quase a partir a automotora, mas eis que surge, caminhando pela via, quatro elementos da Refer. Estão a fazer, explicam, o levantamento do estado da linha, visando a optimização da velocidade para o comboio andar mais depressa". Porque mais vagar é difícil, mas também imprescindível "De Ribeirinha ao Tua, o comboio circula com marcha à vista - nunca a mais de 30 Km/h, permitindo parar após identificar um obstáculo". Santa LuziaMunidos do contexto daquele vagar que não amacia a trepidação, os passageiros entregam-se à contemplação da Natureza.
É a partir de Abrunhedo que se calam as vozes e abrem-se de espanto os olhos dos iniciados. Impressionam-se com pouco, ainda, os turistas montes penteados pelo aro acolhem vinhas, identificam-se amendoeiras ameaçando florir, salgueiros e choupos, há azenhas desnudas ladeando as águas que afeiçoam o leito xistoso. Chega-se a Abreiro e, após ter saído mais alguma, há permuta de gente - saem quatro, entram duas - sem que se vislumbre para onde irá quem fica, embora haja, logo acima, uma ponte de betão. A estação, esventrada, assinala a civilização com um grafito ridículo gritando impropérios na parede.
O rio amodorra-se um pouco, ali, e acolhe, até, um pato no meio de um aluvião. Mas quanto mais penetra a automotora na via, mais o penedo se agiganta e atemoriza, granítico, e estéril. A vontade do homem, porém, engendrou bancadas no dorso da escarpa, e lá plantou oliveiras que enxameiam a encosta, até não lhe ser mais possível combater a pedra, rugosa e bruta. Mortal, aquele declive.
E quase em Santa Luzia, o maquinista, ciente da natureza humana, abranda para que o povo veja a mais nova, e macabra, atracção turística o local onde se despenhou, há um ano, uma automotora, matando três pessoas. "Foi aqui", informa. "Ah, louvado seja Deus…", exclama uma mulher, piedosa, tentando fotografar uma nesga de rio lá em baixo. Garantido o postal, benze-se. Em Santa Luzia, percebe-se como a engenharia, por vezes, é perversa: vêem-se as amarrações de acesso, por teleférico, do povo de Amieiro, aldeia pendurada na outra encosta, à estação. Mas não há teleférico.
…Estação do Tua
A automotora entra no destino final como um carrossel a linha, sinuosa, afaga os flancos do maciço, a trepidação aterroriza as almas sensíveis que, ainda assim, mantém a vista presa, obstinada, à paisagem em que avulta o voo planado de uma ave de rapina - o único apontamento de suavidade. E, quatro túneis depois, surge o oásis ferroviário da estação do Tua, onde jaz a carcaça de uma automotora vermelha anunciando o destino que espera, talvez, a linha inteira: a podridão. "Acho uma pena, por esta linha, e esta paisagem, que é uma mais valia enorme. Tem é de ser mais divulgada, porque o bilhete não é nada caro", diz o madeirense José Cristiano Branco, professor de Educação Física. A mulher explica a origem da viagem insólita "Vi imagens na televisão pelos piores motivos - o acidente - e, há dias, vimo-las outra vez, a propósito da reabertura da linha. Como disseram que podia fechar, viemos cá antes disso". E, apesar de estar "só de passagem", não deixa de se interrogar: "E se o Douro é Património Mundial, como é possível desprezar esta linha?".
JN

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O primeiro dia da 'nova' linha ferroviária do Tua


População já não tinha qualquer esperança de voltar a ver comboio
A Linha do Tua reabriu ontem o troço de 52 quilómetros entre Mirandela e Tua, quase um ano depois do acidente em que morreram três ferroviários. O primeiro comboio saiu da estação de Mirandela às 10.00 envolto em denso nevoeiro que acompanhou a composição ao longo de todo o percurso.A viagem inaugural estava inicialmente destinada apenas à Comunicação Social, mas as portas acabaram por ser franqueadas à população que quisesse aproveitar a viagem. Cinco pessoas corresponderam ao convite a aproveitaram o primeiro comboio para rumar a Carrazeda de Ansiães.E ao longo do trajecto alguns elementos da população foram confidenciando que já não tinham qualquer esperança de voltar a ver o comboio por aquelas bandas. Para Isilda Domingos, residente em Frechas, "o comboio é o meio de transporte essencial, além de mais barato, passa mesmo à minha porta. Já tinha saudades, e apareceu logo numa manhã de nevoeiro" , comenta.Também Armindo Augusto, passageiro habitual da Linha do Tua, ontem viajou de graça por ter sido o primeiro a fazer a viagem na sua reabertura, depois do acidente de 12 de Fevereiro, e o único a fazer o percurso na sua totalidade. Dos restantes passageiros, todos saíram nas estações anteriores ao troço onde ocorreu o acidente. "Hoje pode ir de graça", transmitiu-lhe o revisor.Para José Silvano, presidente da Câmara de Mirandela, o dia era de felicidade. "Não só para mim", dizia ao DN, "mas também para a população das sete aldeias encravadas no vale do Tua , cuja única hipótese de transporte é o comboio". Para estas pessoas, que vivem em aldeias isoladas, a alternativa de transporte é o táxi. "Sai muito caro, e muitas vezes a população não o utiliza, mesmo para ir ao médico, porque não tem possibilidades económicas", reconhece o autarca. Não é apenas o trasporte dos residentes que o presidente da Câmara de Mirandela vê na Linha do Tua. José Silvano acredita no potencial turístico daquela ferrovia e aponta números: "Já trazia cerca de 12 mil pessoas ano ao vale do Tua, número que poderá vir a aumentar para 20 mil com uma boa divulgação por parte da CP e dos municípios envolventes".A colocar em causa estas aspirações está a construção de uma barragem. No entanto, José Silvano confia que "o Governo vai ter o bom senso de não a construir. Seria mau para as populações e para o desenvolvimento regional, ganhamos mais com a linha do que com a barragem, e há alternativas como por exemplo a construção de mini-hídricas", defende.Quanto à segurança, garante que a Linha do Tua " é totalmente segura, em 120 anos apenas teve um acidente, o de 12 de Fevereiro de 2007". Depois disso a linha foi reabilitada e agora o local do acidente está identificado com barreiras de sustentação. Taludes e redes seguram a ravina de onde desabaram as pedras que fizeram descarrilar ao início da noite de 12 de Fevereiro de 2006 uma carruagem do metro de Mirandela com cinco pessoas a bordo. Três acabaram por falecer.Desde ontem os utentes terão à sua disposição duas ligações em cada sentido de manhã e no final do dia. O percurso entre Mirandela e o Tua demorará duas horas, mais meia hora do que antes do acidente. Esta condição de velocidade reduzida na maior parte da linha, por forma a o maquinista ter condições de detectar eventuais obstáculos e travar atempadamente, foi imposta pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil.Ontem o comboio foi conduzido por Fernando Pires que não é maquinista, mas agente de condução. Fez a viagem sem qualquer receio, pois afirma, "há mais acidentes nas estradas que nas vias férreas. Depois de 12 anos a viajar por estes carris não considera a linha mais perigosa do que as outras.

DN/Lusa

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

CP e Metro de Mirandela decidem hoje se vale a pena reabrir troço acidentado

Os presidentes da CP e do Metro de Mirandela decidem hoje, em Lisboa, se vale a pena reabrir o troço acidentado da linha do Tua, encerrado há quase um ano, e cujas obras de reposição estão concluídas desde Outubro

O último troço, dos cerca de 60 quilómetros de ferrovia que ligam Mirandela ao Tua e à linha do Douro, está encerrado há quase um ano, desde o acidente de 12 de Fevereiro em que morreram três pessoas, devido ao desabamento de pedras sobre a linha.
Os trabalhos de reposição da infra-estrutura estão concluídos desde Outubro, mas o troço mantém-se encerrado entre a Brunheda e o Tua, com o percurso a ser feito por táxis ao serviço da CP.
Os dois responsáveis vão analisar se há condições para retomar a circulação, face às restrições impostas pelo LNEC para que se circule em marcha à vista em metade da linha até ao Tua e devido às consequências da construção da barragem na foz do rio Tua.
José Silvano, presidente do Metro de Mirandela e da autarquia local, já disse que tem dúvidas «se vale a pena reabrir o troço, a uma velocidade reduzida de 10 quilómetros por hora». Outra questão em cima da mesa é a construção da barragem na foz do rio Tua, que, independentemente da cota a que for construída, irá submergir parte da linha-férrea.
José Silvano referiu ter agora «a certeza de que a responsável pelo atraso na reabertura do troço é a barragem» e reiterou que ele próprio defenderá o encerramento se a barragem cortar a ligação à linha do Douro, na foz do Tua, e consequentemente do interior ao litoral.

Lusa/SOL

domingo, 21 de outubro de 2007

Barragem não afectará vinhedos nem linha de comboio

EDP já admitiu poder baixar a cota no Tua
Autarcas querem reduzir cota da barragem para viabilizar a linha ferroviária do Tua e desenvolver projectos turísticos na região vinhateira do Douro.
Mário de Carvalho
16:22 | Sábado, 20 de Out de 2007


A Barragem de Foz Tua poderá reduzir a sua cota de forma reduzir os impactos nas zonas vinhateiras da região e permitir a circulação de comboios na ferrovia do Tua. "Tivemos uma reunião com a EDP onde a empresa admitiu no caso de ser a seleccionada para a construção da barragem reduzir a cota, disse ao Expresso José Artur Cascarejo, presidente de Câmara Municipal de Alijó.
A Barragem de Foz Tua está integrada no Plano Nacional de Barragens recentemente divulgado pelo Governo. A sua execução à cota máxima (196m) implicaria a submersão da linha do Tua onde já foram gastos cerca de 3 milhões de euros na sua recuperação e afectaria parte importante de vinhas, nomeadamente, da Adega Cooperativa de Murça. As termas de Carlão e São Lourenço (Alijó e Carrazeda de Ansiães) estariam igualmente condenadas.
José Cascarejo salientou ainda que as autarquias (Mirandela, Alijó, Carrazeda de Ansiães, Murça e Vila Flor) querem que depois da construção a barragem se torne numa mais valia na região em termos e emprego e turismo: "Uma barragem não cria riqueza local. Depois de feita a zona fica um deserto. Queremos encontrar fórmulas para que esse investimento possa ser rentabilizado localmente e para isso contamos com quem vai construir a barragem".
Uma fonte de EDP, que solicitou anonimato, disse ao Expresso que a empresa "não revela a sua estratégia" para este projecto que irá a concurso público para a selecção da empresa responsável pela construção da barragem: "Apenas podemos dizer que trabalhamos com diversas cotas pelo que uma alteração na cota pode ser viável desde que a rentabilidade da barragem não seja posta em causa".

Fonte: Jornal Expresso
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